sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sugestão de livro: MULHERES, FILOSOFIA OU COISAS DO GÊNERO


O livro reúne trabalhos de pesquisadoras/es e filósofas/os na perspectiva de analisar a partir da questão da linguagem a relação entre os três elementos constituintes da obra: Mulheres, filosofia ou coisas do gênero.

De maneira ampla e diversificada os textos abrem-nos várias possibilidades de analisar a questão das mulheres na filosofia.



"Sendo assim, o que se pretende buscar nas reflexões apresentadas neste livro
não é verdade alguma, mas apenas sua busca. Na discussão sobre as "verdades",
entram em choque a verdade do logos socrático e a verdade nietzscheana, a
verdade-mulher. A verdade não impelida por um desejo de alcançar certezas
últimas e definitivas (...). A superfície-profunda da verdade corporal feminina,
como em Baubo, o demônio feminino grego que personificava os genitais e que
Nietzsche usará para mostrar que a mulher na tradição ocidental é o outro. Esta
mulher como o outro é o que cabe pensar. Esse "outro" da história poderia ser
visto na figura alegoricamente representada da heroína Fedra da peça intitulada
Hipólito (428 a.C.) do dramaturgo grego Eurípedes, que trata da suportabilidade
da paixão que a leva à loucura e à morte (...). Que este livro seja uma abertura
de olhos para a novidade do pensamento filosófico reinventado a cada vez que é
enunciado."


(Mulheres, filosofia ou coisas do gênero / organizadoras, Márcia Tiburi e Bárbara Valle. - Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2008.)

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Sugestão de Artigo: As mulheres e a filosofia como ciência do esquecimento*

Falar em história das mulheres é algo um tanto novo no meio acadêmico brasileiro, mas a questão, aos poucos, vem tomando corpo e invadindo espaços variados de investigação. Maior novidade ainda é falar nos temas "mulheres", "gênero" e "feminino" como conceitos, o que remete ao campo próprio da filosofia. O significado desses termos tem plena atualidade filosófica e crítica. Em primeiro lugar, as mulheres são um tema ou mesmo um tópos de uma história da filosofia escrita por homens. É raro encontrar um filósofo que não tenha se ocupado da questão sempre tratada na intenção da delimitação do lugar do humano em sua relação com as mulheres. Enquanto tema, e em segundo lugar, elas são um assunto que entrelaça motivos políticos, estéticos e metafísicos. É nesse território que aparece o conceito do feminino. Os filósofos homens tentaram construir uma geografia onde situar o feminino que, como símbolo, é o locus específico eleito para as mulheres, para definir sua natureza e ditar-lhes uma lei, uma inscrição no universo previamente tecido da tradição. Gênero é o termo usado há algumas décadas para falar dessa produção de identidade segundo a cultura, a sociedade e os mecanismo de poder nela envolvidos. Gênero, portanto, para o feminismo, é um conceito crítico. Do mesmo modo, os outros dois conceitos devem ser vistos de modo crítico, considerando o aspecto retórico, a função e o uso que tentam fazer valer a verdade histórica contida na palavra. (...)

A ausência histórica das mulheres da filosofia pode ser explicada de muitos modos. O primeiro motivo a ser levantado é, portanto, o silêncio feminino facilmente observável na um tanto escassa produção de livros e textos. As mulheres filósofas são poucas e de produção quase rara relativamente aos homens. É claro que falo aqui em termos quantitativos. Não é possível dizer que as mulheres escreveram muito para acobertar uma acusação de inferioridade intelectual - argumento que, mesmo comum, não encontraria sustentação -, nem é possível dizer, entretanto, que não escrevessem ou participassem da fundação da tradição da filosofia. É preciso enfrentar a questão do silenciamento. Apenas a desmontagem desse processo histórico, por meio de uma genealogia que procura verificar seus elementos originários sempre presentes e renascentes na atualidade, permitirá compreender, pela via negativa, a verdade oculta na produção do silêncio imposto. As mulheres, é certo, participaram da filosofia, mas pela porta dos fundos, assim como de todos os setores da vida produtiva e ativa das sociedades. A improdutividade das mulheres - que não se esqueça - não pode ser avaliada sem a procura por aspectos que tocam na fundamentação dos movimentos da história. A alegação de que as mulheres tenham sido, ao longo do tempo, seres do silêncio por sua própria natureza ou que, na divisão do trabalho, tenham ficado com as tarefas do corpo, da procriação, da casa, da agricultura, da domesticação dos animais, por questões sempre naturais, perde sua validade. A produção do ideal da "natureza feminina", assim como de uma "natureza do homem" ou mesmo uma "natureza humana" serve à delimitação do humano segundo a utilidade necessária à constituição e ao interesse do poder e seus guardiões. Os filósofos sempre tocaram com essa questão na produção do humano por meio de sua definição. As mulheres sempre representaram mais do que a cultura excluída da cultura, ou da cena dos meios de produção e do conhecimento: as mulheres representam a humanidade excluída da humanidade. (...)

* Márcia Tiburi. Filósofa.
(Texto na íntegra: http://www.marciatiburi.com.br/textos/asmulheres.htm)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

MANIFESTO do Grupo de Mulheres da Filosofia

"A realização singular de cada mulher revela a contribuição das mulheres à pluralidade do mundo." (Eugênia Wagner)


"Manifesto" (*)

Fortaleza, janeiro de 2009.

Estamos cientes de que o papel atribuído ás mulheres no decorrer da História da Filosofia não condiz com a importância que elas têm na construção dessa mesma história. Mulheres notáveis como Hipátia (ou Hipácia) de Alexandria (370 - 415 E.C.), que atuou em diversas áreas do conhecimento, como matemática, astronomia, filosofia, religião, poesia, artes, oratória e retórica, foram silenciadas e sequer são consideradas filósofas/ pensadoras ou tem algum tipo de reconhecimento na sua área de atuação, pelo simples fato de serem mulheres. E outras tantas no decorrer da história são igualmente negligenciadas, embora as mesmas tenham lutado para mudar essa realidade, como Hannah Arendt, Simone Weil, Edith Stein, Mari Zambrano, Rosa Luxemburgo, Simone de Beauvoir e etc.

Que questões sociais, políticas e morais estão embutidas nesse fato? Porque as mulheres foram silenciadas? Porque elas calaram? São questionamentos como esses que norteiam a nossa reflexão. Não queremos apenas fazer justiça à ausência das mulheres na “filosofia oficial” (dos “manuais”), mas antes fazer com que esse fato não continue a ser mais notável que as grandes pensadoras que foram e ainda são negligenciadas por ele.

O Grupo de Estudos sobre as Mulheres na História da Filosofia nasceu com o intuito de tornar público esse debate a partir da nossa Universidade e comunidade acadêmica. Ousamos fazer essa discussão porque queremos que a filosofia seja um espaço igualitário no que diz respeito às produções, ao engajamento e a divulgação do conhecimento sem preconceitos, para que assim a sociedade como um todo também possa ser beneficiada.

No momento histórico em que vivemos, de crise econômica nas estruturas do mercado capitalista, de avanço tecnológico em tempo real, de conquistas em maiores espaços para as mulheres, mas que ao mesmo tempo ainda reproduz o ideal patriarcal e machista, as desigualdades sociais, e diversos preconceitos... é que queremos dizer:

Nós mulheres, estudantes de filosofia...

  • Prezamos pelo livre pensamento e pela mudança nos rumos da nossa história;
  • Acreditamos que a filosofia precisa ser difundida de maneira a abranger o maior número de pessoas possíveis, pois assim desempenhará o papel social a ela designado: ajudar as pessoas a questionar-se e a questionar o mundo em que vivem, as coisas deste mundo e a própria existência;
  • Queremos uma educação que antes de tudo seja formadora de pessoas livres e conscientes social e politicamente;
  • Sonhamos com um mundo melhor... mais humano, fraterno e igualitário, onde as nossas diferenças não sejam antagônicas ás nossas igualdades, mas que se complementem em um ambiente de respeito mútuo, compreensão e fraternidade;
  • Somos contrárias ao machismo, ao patriarcalismo e a uma moral que não leve em consideração as diversas realidades presentes no mundo;
  • Somos a favor de um mundo onde mulheres e homens possam caminhar junt@s e produzir conhecimento em pés de igualdade sem que um/a esteja em detrimento do/a outro/a.

Essa é a nossa utopia, que nos guiará por novas descobertas, rumo a um novo jeito de “fazer” Filosofia!

* Aberto à contribuições.

mulheres.filosofia@gmail.com